O Paradoxo de Chicago

autor

Daniel Luís

contactarnum. de artigos 159

Assinala-se amanhã em todo o mundo civilizado e democrático o Dia Mundial do Trabalhador. Curiosamente, é um dia em que os trabalhadores não trabalham, preferindo antes participar em manifestações e piqueniques pois o estômago, esse, nunca deixa de trabalhar. Mas essa paragem no trabalho no dia 1 de Maio pode ser entendida, este ano, como um gesto solidário para com os milhões de desempregados existentes por esse mundo fora.

Ao todo, há em Portugal, mais de 1,2 milhões de desempregados e este número não cessa de aumentar todos os dias, fruto do árduo trabalho do nosso querido Governo em prol da fé liberal do regresso aos mercados em 2013. Também a nossa vizinha Espanha se vê a braços com 5,6 milhões de desempregados enquanto um idiota Rajoy mergulha o país na recessão, seguindo as mesmas verdades liberais de Vítor Gaspar.

O Dia Mundial do Trabalhador foi criado em 1889 por um Congresso Socialista realizado em Paris. A data foi escolhida em homenagem à greve geral que aconteceu no 1º de Maio de 1886 em Chicago, o principal centro industrial dos Estados Unidos, nesse período.

No dia 1 de Maio de 1886, milhares de trabalhadores saíram às ruas para protestar contra as condições de trabalho desumanas a que eram sujeitos e para exigir a redução da jornada de trabalho de 13 para 8 horas diárias. Nesse dia, manifestações, passeios, piquetes e discursos movimentaram a cidade. A repressão ao movimento foi dura: houve prisões, feridos e até mortos nos confrontos entre os operários e a polícia.

Em memória dos mártires de Chicago e das suas reivindicações operárias e por tudo o que esse dia significou na luta dos trabalhadores pelos seus direitos, servindo de exemplo para o mundo inteiro, o dia 1º de Maio foi instituído como o Dia Mundial do Trabalhador.

Paradoxalmente, é de Chicago que têm saído as ideologias neoliberais e seus ideólogos, os famosos “Chicago Boys”, que acham que o papel do Estado na sociedade se deve resumir ao mínimo dos mínimos. Desta “escola” saíram as infelizes políticas neoliberais adoptadas por Margaret Thatcher e Ronald Reagan, por exemplo.

E quem é que é um grande seguidor dos “Chicago Boys”? Nem mais nem menos do que o nosso Ministro Gaspar. Daí a sua grande sede em cortar a torto e a direito tudo o que lhe passa na sua cabecinha de gangster, na esperança de ficar conhecido pelo cognome de “Gasparzinho de Ferro”: ele corta nos feriados, reduz as indemnizações por despedimento, corta as prestações sociais de forma obscena…

Se, por um lado, foi em Chicago que ocorreram as lutas laborais que haveriam de dar origem, à custa de muito sangue, suor e lágrimas, ao Dia Mundial do Trabalhador, por outro lado, também foi em Chicago que se desenvolveram as teses neoliberais que haveriam de assassinar (e continuar a assassinar) muitos dos direitos dos trabalhadores. Quem não se lembra da forma repressiva como Margaret Tatcher reprimiu, em 1984, a greve dos Mineiros? Simbolicamente, estava dado o primeiro passo para o fim dos direitos dos trabalhadores na matriz do contrato social esta-belecido e conhecido até então.

Durante quatro décadas o Estado Novo proibiu a comemoração do Dia Mundial do Trabalhador, mas agora, passadas quase décadas do fim do Estado Novo poucas razões nos restam para comemorar o Dia Mundial do Trabalhador, pois o desemprego atingiu níveis “hard core” e o trabalhador é cada vez mais uma “espécie” em vias de extinção.

Razões para comemorar havia em 1974, tal como escrevia Miguel Torga no seu Diário:
“Coimbra, 1 de Maio de 1974 - Colossal cortejo pelas ruas da cidade. Uma explosão gregária de alegria indutiva a desfilar diante das forças de repressão remetidas aos quartéis.
- Mais bonito do que a Rainha Santa… - dizia uma popular.”

Mas estou em crer que os grandiosos festejos do 1º de Maio de 1974 celebraram essencialmente e liberdade e não tanto o trabalhador. Afinal quem foram os anfitriões desses festejos? Mário Soares e Álvaro Cunhal...

Amanhã, a haver festejos, estes serão essencialmente de natureza diferente de actor para actor social. Assim, os (pouquíssimos) trabalhadores festejarão o facto de ainda não terem sido despedidos. Já os desempregados festejarão o facto de ainda terem alguma comida para si e para os seus filhos e ainda alguma réstia de esperança no futuro…

vote este artigo

 

Comente este artigo

Faça login ou registe-se gratuitamente para poder comentar este artigo.

comentários

Não existem comentários para este artigo.

Últimos artigos desta categoria -

Tempo

Farmácias de serviço

Classificados

Edição Impressa (CM)

Edição Impressa (MF)

Newsletter

subscrição de newsletter

mapa do site

2008 © todos os direitos reservados ARCADA NOVA - comunicação, marketing e publicidade, S.A. | concept by: Cápsula - soluções multimédia