25 de Abril de 1974: o tempo passa depressa

Ideias

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J.A. Oliveira Rocha

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Já lá vão 38 anos, mas lembro-me perfeitamente. Estava em Coimbra, no último ano de Direito. O Manuel Nabais, chegado há pouco tempo das colónias, e que estudava de noite, e dormia de dia, acordou todos com a notícia do golpe de estado e da iminente queda do regime. Depois foram as correrias, as festas, as assembleias e o esboroar do regime que, verificou-se assentava sobretudo no modo coletivo e em frágeis instituições de repressão. Mas era o medo, a subserviência, a apatia, o individualismo e o oportunismo o segredo da manutenção do regime durante quase cinquenta anos.
Rapidamente o golpe de Estado transformou-se numa revolução e, portanto, numa mudança do sistema político. É aprovada a constituição, são feitas eleições, o país integra-se na União Europeia. Entretanto, começa-se bem cedo e estruturar um Estado Social, com o serviço nacional de saúde, sistema generalizado de segurança social e acesso alargado ao ensino e educação. Em síntese, criou-se uma democracia política em tudo, parecida com as democracias europeias. Mas as democracias não persistem sem uma classe média na qual se apoie e que a suporte. Esta classe média amortece as contradições entre quem tem dinheiro (poucos) e quem não o tem (muitos). Só que esta classe média foi uma criação do Estado alimentada pelos impostos e dinheiros comunitários, empréstimos e juros baixos.
Com altos e baixos o país lá foi sobrevivendo ao longo de 35 anos, diga-se o mais longo período de prosperidade na história de Portugal.
Mas veio a crise de 2008 e as economias de pé de barro como a portuguesa começaram a desmoronar-se. Bem tentou o governo anterior recorrendo à velha receita keynesiana, mas com o empurrão do Presidente da República, caiu nos braços da troika e dos partidos da direita.
E agora? O Estado social vem sendo desmantelado de forma sistemática, diminuindo-se o seu alcance. Em parte, como consequência a classe média vai desaparecendo com o fim dos subsídios de Natal e Férias, diminuição dos salários e aumento dos impostos. Anuncia-se uma vida difícil para quem estava habituado a passar férias em países tropicais. Percebe-se o seu desânimo e a sua tristeza.
Diz o governo que isto é passageiro e que depois do Inverno virá a Primavera; que tudo é uma gestão de ajustamento da despesa á receita.
Mas que será da democracia política sem classe média? A teoria política diz que há uma associação. O governo espera que os portugueses empobreçam com resignação e não sejam mal comportados como os gregos ou os espanhóis. E como não é possível recorrer a instrumentos de repressão de há quarenta anos atrás, espera-se que a indoutrinação e o controlo da comunicação social façam o resto. E quem se não sentir bem que emigre.
Alternativas a esta filosofia política? Nenhuma. A oposição (PS) perde-se em questiúnculas internas, sem ideias, sem liderança, sem projeto alternativo.

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