Salazar tinto

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Daniel Luís

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O Presidente da Câmara de Santa Comba Dão acaba de ter uma peregrina ideia para desenvolver a sua terra, mergulhada na recessão, no desemprego e em espaços comerciais vazios: lançar um vinho com o nome de Salazar. Sim, o leitor leu bem! João Lourenço quer dinamizar a economia santacombadense à custa do ditador que governou com mão de ferro Portugal entre 1932 e 1968.

E o vinho é só o princípio, já que o autarca de Santa Comba Dão pretende associar o nome de António de Oliveira Salazar a outros produtos locais. Assim, é altamente provável que a seguir ao vinho “Memórias de Salazar” se lhe sigam o queijo “chulé de Salazar”, a “chouriça de Salazar”, os “tomates de Salazar” ou ainda as famosas “cadeiras de Salazar”.

Se nos tempos da ditadura tí-nhamos os terríveis agentes da PIDE Silva Pais e Sílvio Mortá-gua, temos agora, nos tempos da democracia, o saudosista Presidente João Lourenço que pretende preservar as memórias de Salazar, e dos seus leais agentes, a todo o custo. Assim, um ex-preso político que tenha lutado contra o fascismo e que tenha sido barbaramente torturado numa das prisões do regime, apenas tem que beber um copo do “Memórias de Sala-zar” para voltar a recordar com nitidez esses velhos tempos de luta contra o fascismo. Brilhante!

Quem parece andar já a emborcar uns valentes copos do “Memórias de Salazar” é Otelo Saraiva de Carvalho, que parece acre- ditar viver ainda no regime ditatorial salazarista, como se vivesse embriagado num mundo onde os tanques, as armas e os golpes militares constituem o enredo de um sonho sanguinário ao mais alto nível.

É verdade que Salazar foi considerado, há poucos anos atrás, por um painel de telespectadores que não se importaram de gastar uma pipa de massa em telefonemas, o maior português de sempre, o que quer dizer que Salazar continua vivo e bem vivo na memória de muitos portugueses. E também não é menos verdade que as biografias, fotobiografias e todos os livros sobre Salazar são autênticos êxitos de vendas.

Mas ter-se curiosidade por uma figura histórica significa que se tenha paixão por ela? Honestamente não creio, pois não é por eu ler um livro sobre a vida de Salazar que me estou a identificar com o seu ideário! Agora se eu ler compulsivamente todos os livros que existem sobre Salazar, isso sim, começa a ser preocupante… então para compensar tanto Salazar, terei que ler os ensaios económicos de Francisco Louçã…

Mas se esta moda de associar nomes de ditadores a produtos regionais pega, ainda vamos ter a “cerveja Hitler”, a “pizza Mussolini”, a “tortilha General Franco”, o “arroz Mao Tse Tung”, o “chá Pol Pot” ou as “matryoshkas Estaline”.

O Presidente da Câmara de Santa Comba Dão assegura, numa entrevista ao jornal “Público” que “a marca Salazar está intimamente associada a produtos da terra, nacionais, saudáveis, não manipulados”. Mas que grande novidade! “Terra” - todos sabemos o apego que Salazar tinha à sua querida terra natal; “nacional” - também sabemos que o governo de Salazar era nacionalista e que qualquer associação que se criasse tinha também que o ser, sob pena de não ser aprovada pelo Estado Novo; “saudável” - Salazar também só gostava do que era saudável, pois consta que ele em S. Bento só comia comidinha que era produzida na sua terrinha natal e, claro, aos perturbadores e agitadores do regime, Salazar colocava-os ou no Aljube, em Caxias ou em Peniche, a fim de preservar a saúde do regime; “não manipulados” - aqui é que as coisas não batem certo, pois Salazar gostava de manipular tudo e todos, para parecer que o regime ia bem…

Estou expectante sobre qual será o rótulo da garrafa do “Memórias de Salazar”. Será uma pintura artística de um combatente pela liberdade agrilhoado numa cela da prisão de Peniche, com os testículos esmagados? Afinal, o nome do vinho é “Memórias de Salazar”…

Aposto que os grandes consumidores deste vinho serão os eventos organizados pela extrema-direita portuguesa, como forma de homenagear Salazar. Sempre é mais uma forma dos participantes nesses eventos incorporarem dentro de si o espírito fascista…

Por outro lado, o “Memórias de Salazar” é óptimo para pregar partidas aos nossos amigos de esquerda. Podemos, por exemplo, oferecer um “Memórias de Salazar” tinto a um nosso amigo, militante do Partido Comunista, por ocasião do seu aniversário. Aposto que ele nunca mais se vai esquecer desse aniversário…

O que diria Salazar se soubesse da existência de um vinho com o seu nome “Memórias de Salazar”? Provavelmente diria: “Beber vinho é dar de comer aos munícipes de Santa Comba Dão”.

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